Em 2026, o ecossistema de inovação brasileiro revela um movimento pouco antecipado: a descentralização das startups deeptech. Luciano Colicchio Fernandes, empresário, acompanha esse fenômeno e observa que o Brasil colhe os frutos de uma aposta feita em centros universitários e polos industriais distantes dos holofotes de São Paulo e do Rio de Janeiro.
O ponto central desta análise não é apenas celebrar a descentralização, mas entender suas engrenagens. Deeptech não é sinônimo de aplicativo ou marketplace: trata-se de empresas sustentadas em pesquisa científica densa, como inteligência artificial aplicada à saúde, biotecnologia, sensores industriais e robótica. Quando esse tipo de empresa começa a emergir em Recife, Florianópolis ou Belo Horizonte, o sinal é de maturidade estrutural, não de modismo passageiro.
Por que o interior e o nordeste passaram a atrair deeptech?
Três fatores se reforçam mutuamente: custo operacional competitivo, densidade universitária crescente e programas estaduais de fomento à inovação. Estados como Ceará, Pernambuco e Santa Catarina investiram na última década na criação de ambientes que conectam pesquisa acadêmica ao mercado privado. O resultado prático é uma geração de pesquisadores-empreendedores dispostos a construir empresas sem precisar migrar para os grandes centros.
Outro vetor relevante é a digitalização das cadeias produtivas regionais. Indústrias do agronegócio no Centro-Oeste, manufatura no interior mineiro e logística portuária no Nordeste passaram a demandar soluções tecnológicas sofisticadas que empresas locais entregam com aderência técnica e cultural. Esse ciclo de demanda interna alimenta ecossistemas que antes dependiam quase exclusivamente de capital vindo das metrópoles.
Tecnologia e esporte: uma fronteira fértil para o deeptech regional
Um dos ângulos mais instigantes dessa expansão está na convergência entre inovação tecnológica e esportes de alto rendimento. Luciano Colicchio Fernandes identificou nesse cruzamento um campo promissor para startups que desenvolvem sensores vestíveis, plataformas de análise biomecânica e sistemas de monitoramento de performance atlética. Clubes esportivos de médio porte, localizados fora das capitais tradicionais, tornaram-se parceiros inesperados de startups que precisam de ambientes reais para validar tecnologia.
Essa parceria exige precisão de dados, confiabilidade de hardware e capacidade de interpretação analítica em tempo real. Quando uma startup de Campinas desenvolve rastreamento de movimento para atletas de futebol de base, ou uma empresa catarinense cria sensores de performance para ciclistas, estamos diante de soluções com potencial de exportação significativo. A inovação começa local, mas a ambição é global.

Florianópolis, Recife e Belo Horizonte: os polos que mais crescem
Entre as cidades que mais avançam nesse mapa de descentralização, Florianópolis se destaca pela combinação entre qualidade de vida, talentos formados na UFSC e ecossistema maduro de investimento-anjo. Recife conta com o Porto Digital como âncora institucional e tem atraído capital de risco internacional interessado em deeptech voltada à saúde e à agricultura de precisão. Belo Horizonte, com sua tradição em engenharia pela UFMG, concentra soluções voltadas à mineração inteligente e à automação industrial.
O empresário Luciano Colicchio Fernandes aponta que esses três polos têm em comum aceleradoras com foco em ciência aplicada, e não apenas em modelos de negócio digitais. Esse detalhe faz diferença: uma aceleradora orientada a deeptech compreende que o ciclo de maturação é mais longo e que o capital precisa ter paciência estratégica para gerar retorno consistente.
O papel do investimento e da política pública nessa equação
Seria ingênuo atribuir esse movimento apenas ao empreendedorismo espontâneo. Programas como o Tecnova, iniciativas do BNDES voltadas à inovação de base tecnológica e editais estaduais que priorizam parcerias entre universidades e empresas formaram a espinha dorsal financeira desse ecossistema. Sem essa infraestrutura de fomento, muitas startups deeptech fora do eixo São Paulo–Rio simplesmente não teriam chegado à fase de produto viável.
A consistência das políticas públicas é, segundo Luciano Colicchio Fernandes, muitas vezes mais determinante para o desenvolvimento de um ecossistema deeptech do que o volume bruto de recursos disponíveis. Governos que criam regimes tributários especiais para empresas de tecnologia intensiva em pesquisa enviam ao mercado um recado claro: há comprometimento de longo prazo, e não apenas retórica de campanha.
O que esperar dos próximos anos para o deeptech brasileiro regional?
Com a consolidação dos modelos de trabalho distribuído, a redução no custo de acesso a ferramentas de desenvolvimento de hardware e a expansão das redes de banda larga em regiões anteriormente excluídas, as barreiras de entrada para startups deeptech fora dos grandes centros continuam caindo de forma consistente.
O Brasil tem a chance rara de construir um ecossistema deeptech genuinamente policêntrico. Para que esse potencial se converta em protagonismo, o próximo passo não é apenas criar mais startups, mas construir pontes sólidas entre pesquisa, capital paciente e mercados que compreendam o valor do que está sendo desenvolvido. Como Luciano Colicchio Fernandes sintetiza, o Brasil que inova fora do eixo não é uma curiosidade regional. É uma promessa que começa, finalmente, a cumprir seu próprio calendário.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
